O Atentado do Gulliver
Depoimento inédito de Tarcísio Burity
João Pessoa - Em livro que será publicado nos próximos dias, com a biografia de Tarcísio de Miranda Burity, o jornalista paraibano Biu Ramos, ex-correspondente do Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, revela um depoimento inédito do ex-governador sobre o atentado de que foi vítima no dia 5 de novembro de 1993, no restaurante Gulliver. Naquela ocasião, o seu desafeto Ronaldo Cunha Lima, então governador do estado, disparou três tiros à queima-roupa contra ele, numa tentativa de assassinato que ainda hoje repercute em todo o país, em face da decisão do STF de processar o autor dos disparos.
Burity começa afirmando que, com o tempo, depois de refletir muito sobre o episódio, “não consigo encontrar razões para o gesto tresloucado. Se os motivos foram aqueles que ele apresentou, não só no depoimento na Polícia Federal, como em várias oportunidades posteriores, se os motivos para a prática do crime, que consistiu numa tentativa de homicídio qualificado contra minha pessoa – se foram aqueles os motivos, eu posso dizer em sã consciência que ele atirou na pessoa errada”.
No livro “A Tragédia do Gulliver”, o jornalista revela que em seu depoimento Burity desafiou Ronaldo a provar, por qualquer meio ou documento, que tivesse, em alguma ocasião, atingido a honra ou a dignidade do seu filho.
- Em que jornal da Paraiba ou do estrangeiro – enfatizava o ex-governador - em que rádio da Paraíba ou fora da Paraíba ou do estrangeiro, em que televisão da Paraíba ou fora da Paraíba ou do estrangeiro, ele identifica uma acusação de tal gravidade à honorabilidade do filho, para forçá-lo a cometer um crime bárbaro e covarde daquela natureza? Nunca apresentou uma prova sequer, porque jamais existiu.
Em sua longa narrativa, o biografado faz um relato dramático dos momentos de angústia e desespero que experimentou desde o primeiro tiro e mais os dois que se seguiram. Disse textualmente Tarcísio Burity ao autor da sua biografia, que está sendo editada por uma gráfica de João Pessoa:
- Foi no momento em que eu fiz um gesto para pegar uma azeitona quando ouvi um grito histérico de alguém dizendo: “Não faça isso!” Eu então virei o rosto para o lado esquerdo e já senti o tiro. Me lembro como se fosse hoje, porque dessas coisas ninguém esquece: o rosto de Ronaldo, com aquela expressão ensandecida, com os olhos esbugalhados, se escorando atrás do corpo de Manuel Gaudêncio, que estava sentado, com o revólver apoiado no seu ombro direito. Tudo foi instantâneo. Até a chispa do tiro eu vi, porque o ambiente era meio escuro. Eu concluo que ele tentou atirar no meu ouvido, mas com o movimento que eu fiz, ao me virar, a bala atingiu o meu maxilar esquerdo. Ele deu dois tiros consecutivos. O impacto é muito grande, é incrível que uma balinha daquelas, de um revólver 38, cause um impacto tão violento.
Continua Burity, mostrando que, apesar do desespero do momento que vivia, guardou na memória todos os lances daquele trágico episódio:
- Com o primeiro tiro, eu sou violentamente empurrado para cima da mesa, e o segundo tiro passou triscando o meu peito esquerdo, acima do coração, e atinge meu paletó, que estava no espelho da cadeira. Nisso, eu quase perdendo os sentidos, percebi que Manuel Gaudêncio havia se levantado e, instintivamente, se vira e se agarra com a pessoa que estava atirando e só aí eu percebi que era Ronaldo Cunha Lima. Embora quase desmaiado, eu também senti, por força do instinto, minha consciência dizendo que eu tinha que sair dali, indicando que eu estava no alvo mais frágil possível. (...) Eu caí de bruços no chão, eu ouvia aquela gritaria, aquela algazarra dentro do restaurante, todo mundo querendo sair ao mesmo tempo, as pessoas passando por cima de mim. Quando eu olho para cima, vejo mais uma vez ele com o revólver tentando atingir as minhas costas e Manuel agarrando a sua mão e ele baixando o braço para atirar. Então eu pensei: agora eu vou morrer, e esperei o tiro fatal nas minhas costas. Ele dá o terceiro tiro, mas como Manuel estava agarrando o braço, o tiro passa de raspão na minha perna. Eu vi quando ele apontou e vi quando ele atirou. Ele gritava: “Quero matar! Quero matar! “Quero matar!” – completamente ensandecido. Mas graças a Deus, Manuel o controla e forma-se aquele bolo empurrando Ronaldo na direção dos banheiros.
Depois de contar a sua difícil trajetória para sair do restaurante até ser socorrido por dois amigos, Burity faz uma grave denúncia contra o então vice-governador Cícero Lucena, hoje senador pelo PSDB, que também estava no restaurante, assistiu a toda a tragédia e negou-se a socorrê-lo. Eis o que disse a vítima de Ronaldo:
- (...) Eu guardo uma mágoa profunda até hoje (1996, data do depoimento) do sr. Cícero Lucena. Isso eu quero também deixar registrado para a história. Ele era a segunda autoridade do estado, depois do governador. Estava presente na mesma sala, na mesa contígua à minha e não houve um gesto sequer de sua parte que consignasse no seguinte: socorram a vítima, já que o crime estava sendo praticado pelo governador do estado. Mas teve outros gestos, que estão comprovados na história do atentado: a atitude das providências pessoais de dar fuga ao criminoso, pois foi ele quem lhe deu fuga do local do crime”.
A viúva, professora Glauce Navarro Burity, insiste em esclarecer que seu marido teria perdoado o seu algoz, no momento em que escrevera o bilhete aos filhos, do leito do hospital, pedindo para que não se vingassem. Mas, se ele perdoou, nunca o absolveu, porque sempre confiou na Justiça, como ardoroso cultor do Direito que sempre foi e expressava a sua indignação com a impunidade parlamentar- disse Glauce. “Ele nunca aceitou recebê-lo em nossa casa, uma vez que o desafeto insistia para ouvir do Tarcisio o pedido de perdão.” Sabia ele que o mesmo iria se auto-promover em torno desse perdão - conclui Glauce.
Biu Ramos