Não é difícil discorrer com desenvoltura sobre o valor de Tarcísio Burity, principalmente se, quem com ele conviveu, era imunizado do veneno da inveja ou dos ditérios da maledicência, tão encontradiços na frágil e fraca natureza humana.
Sinto-me à vontade para dissertar sobre o papel relevante por ele exercido nesta pobre e pequenina Paraíba, tão disputada por quantos alimentam insaciáveis ambições de mando...
Longe de mim canonizá-lo, ou negar-lhe ambições, próprias da natureza humana. Só garanto que a ambição de subir a qualquer custo, até esmagando vidas, jamais seria modelo de grandeza por ele sonhada. Ao contrário, o poder lhe veio às mãos, atraído por seus méritos, como a montanha a Maomé, para surpresa dos céticos...
Certa vez, ao fazer-lhe breve saudação, em nome dos colegas, falei mais ou menos assim: “ Nunca se viu de uma árvore tão verde brotarem tantos frutos sazonados”. Estava ali, com 40 anos, governando o Estado. Então, lembrei-me da sabedoria árabe a nos contar que, certa vez, perguntaram a uma árvore cheia de frutos: “Por que não fazes nenhum barulho?” A árvore respondeu: “ Meus frutos são a minha propaganda”.
Eu, que com ele convivera ainda menino, aprendi bem cedo a ver de perto algumas virtudes que amalgamavam sua personalidade:
- a inteligência fecunda e o permanente gosto pelo saber (herdados e cultivados), justificando suas inclinações multiformes que se estendiam da música à trigonometria;
- a generosidade natural em servir, antes mesmo de ser solicitado, patrimônio dos grandes, como identificava Gandhi, ao dizer que a bondade só conta quando ligada ao saber;
- a preservação das amizades verdadeiras, como se já tivesse lido em Goethe que elas são títulos honoríficos, pois quanto mais velhos, mais preciosos.
Há outras tantas qualidades que não desfilarei aqui para não me chamarem de bajulador. Por sinal, ele já está em outra dimensão. Os bajuladores mesmo que me desculpem. Esta pequena mensagem não tem a conotação dessa moeda falsa que não circula entre amizades verdadeiras. Não visa retorno, tão somente ser fiel à verdade.
Em sua vida, que foi breve, teve a fortuna, porém, de deixar um rico cabedal de lições, feitos e exemplos. Ele foi aquilo de que falou Rasting: “ O homem que é alguém tem sempre contra si todos aqueles que se desesperam de não serem alguma coisa”. Não vou me deter em sua vasta biografia, outros já o fizeram e outros ainda o farão. Trago apenas a expressão sincera de um amigo e companheiro que acompanhou por vários anos os seus passos e o viu, às vezes, esquiando sobre auroras e, em outras, se equilibrando entre punhais. Teve sempre ao seu lado, em todas as horas, a confidente e companheira: sua esposa Glauce.
Finalizo, com uma estrofe do Padre Daniel Lima, filósofo e poeta pernambucano, no grande poema dedicado a Anchieta, aplicando-a ao nosso homenageado, este vulto da história paraibana, que, tal como aquele herói do Evangelho, "em um curto espaço de tempo, preencheu uma larga missão":
“ Deus nas mãos apertou
Um punhado de estrelas coruscantes
E, após brevíssimos instantes,
O punhado de estrelas se apagou...”
João Pessoa, 28 de novembro de 2007
João Bosco Fernandes
Professor Universitário (aposentado)